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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

As Boas Vistas de Roraima

Eu estaria mentindo se dissesse que sempre quis conhecer Roraima.

Aliás, se fôssemos fazer uma lista dos 26 estados brasileiros que eu gostaria de visitar, é provável que Roraima não figurasse sequer entre os vinte primeiros.

Mas a vida, como sabemos, sempre apronta das suas surpresas. Eu precisaria acompanhar minha avó na visita a um parente enfermo que vive por aquelas bandas. Então me vi arrumando as malas - quer dizer, as mochilas - às pressas e partindo rumo à Boa Vista.

5h30 de voo depois e duas horas a menos no fuso-horário, chegávamos enfim à capital roraimense. O que aquele lugar no extremo norte do Brasil teria de bom?


A capital do Estado mostrou-se bem peculiar antes mesmo de aterrissarmos. Ao contrário de Vitória, Boa Vista é baixinha, praticamente não há edifícios. Em parte porque projeto de desenvolvimento da Região Norte sempre foi o de expansão horizontal. Com tanto espaço em meio à densa selva, não há porque não crescer para os lados. Mas o tipo de solo amazônico também interfere nessa característica já que, por ser arenoso, impede a sustentação de grandes construções sem que essas venham a ceder.

O aeroporto é diminuto. Na infância, estudei em uma escola que era maior do que toda a sua extensão. A sala de embarque era de tamanho menor do que a cozinha da minha mãe. Mas nada disso interfere em sua funcionalidade: É organizado, limpo e bem estruturado.

Como é possível ver desde o alto e também nos mapas, a cidade foi projetada na forma de um leque. Por isso, ao menos em sua região central, os deslocamentos são fáceis e sem chance de se perder. Ao sairmos do aeroporto, dei de cara com uma cidade tranquila e bem cuidada, com comércios e cenas típicas como as de qualquer reduto de classe média. Com exceção da ausência de prédios, à primeira vista as avenidas principais de Boa Vista poderiam passar como ruas de Belo Horizonte ou de São Paulo. Talvez passassem por ruas do Rio de Janeiro também, se houvesse bastante lixo no chão e favelas visíveis - o que não era o caso, felizmente.

No caminho, alguns destaques, como a UFRR, a Praça do Garimpeiro e o Super K, um curioso cinema com uma fachada bem excêntrica, cheia de desenhos e esculturas de personagens Disney e Marvel. Com jeitão de parque de diversões (e filmes anunciados que já saíram de cartaz há um bom tempo no sudeste), é capaz de atrair a atenção de qualquer criança. Eu mesmo conheço algumas que passariam um dia inteiro sem fazer pirraça só para conhecer o local.

Ainda em direção do Centro, encontra-se a bela Praça das Águas e seu imponente Portal do Milênio. À noite o lugar ferve! Repleto de bares e lanchonetes em suas proximidades (há um Bob's bem em frente), chama a atenção a quantidade de pequenos restaurantes em seus anexos, vendendo pratos típicos da região, que variam do X-Milho ao Tambaqui na Brasa, passando pela Paçoca (que aqui não é doce nem de amendoim) e o cachorro-quente (que não leva salsicha nem linguiça, é só um pão com carne ou frango). E claro, o famosíssimo Tacacá, prato - ou melhor, cuia - à base de tucupi, ramos de jambu (que produzem uma sensação de formigamento na boca), camarão e "goma", seja lá o que for isso.


O resultado até que é bom, mas me pareceu um pouco difícil tomar todo o caldo - principalmente quando acabam-se os camarões e se você exagerou um pouco na pimenta.

Ainda na Praça das Águas, é possível perceber um pouco dos costumes locais - às vezes nem tão diferentes - do povo roraimense. Alguém teve a boa ideia de ligar uma televisão ao Kinect e as crianças se divertem no jogo de dança. Jovens com traços indígenas bem pronunciados aderem à algumas modas ultrapassadas e travestem-se com roupas e acessórios emo, maquiando-se a caráter, com direito a semblante triste e batom preto. O pessoal daqui leva esse negócio de "tribo" a sério, pensei...

Ainda sobre os jovens, notei uma certa sexualidade exacerbada na maioria. Seria talvez influência da novela das nove, que por aqui passa duas horas mais cedo? Garotos e garotas de no máximo uns 10 anos desfilavam arrumadinhos e de mãos dadas, atuando como um casal de pelo menos o dobro de suas idades. Muitas garotas mais velhas, aparentando 14 ou 15 anos, tinham bebês a tiracolo - e não pareciam estar passeando com o irmãozinho menor. Roupas curtíssimas e provocantes predominavam. Eu, que aquela altura já tinha visto índio emo, agora também contemplava índios gays e índias periguetes.

Convenhamos, não é uma coisa que se vê todo dia por aí.

Boa Vista também tem praia - ou quase isso. É a Orla Taumanan, que beira o rio Branco e é excelente para fazer um passeio sobre sua plataforma de madeira. À noite, o público dos bares é bem mais velho do que o da Praça das Águas e aproveita a música ao vivo que toca nos sofisticados ambientes do lugar. A vista para a Ponte dos Macuxis e das faixas de areia que se formam no rio com a estiagem são um privilégio à parte.

Surpreendi-me positivamente com o estado de conservação e qualidade das estradas principais. Elas são simplesmente... tapetes em forma de asfalto! Nelas, o que mais se vê são carros chegando facilmente aos 100, 120 e até mesmo 140 km/h sem esforço e com relativa segurança.

À essa altura, eu descobrira que na verdade não ficaríamos em Boa Vista, mas sim em Mucajaí, município distante 50 km da capital.



Tratei de arranjar uma bicicleta emprestada e fui ganhar as ruas de terra do lugar, enquanto o sol se punha.


Mucajaí parece com qualquer cidade pequena do interior do Brasil. Uma estrada principal cruzando-a no meio e ruas não asfaltadas em paralelo. Casas espaçosas, a maioria sem muros, com algum comércio incipiente por perto e intimidade entre todos os habitantes, que se conhecem por apelidos e filiação.

"Hotel Evolução" ao lado da "Pousada do Jesus". Xiii, e agora??

Pedalando, cruzei o município de uma ponta a outra em menos de 10 minutos.

Uma rápida ida à padaria - surpresa!, o pessoal é parente meu - e consigo pães e bolos de graça. Ou melhor, nem tão de graça, já que dei uma carona para o filho do padeiro, provavelmente meu primo de 42º grau!


Eu e o pequeno Davi pelas ruas de Mucajaí.

Mucajaí, como tantos outros municípios desse Brasil, chama a atenção pela ausência de indústrias, ou de atividades em larga escala de agricultura e pecuária. Perguntados sobre como é gerada a riqueza do lugar, muitos dos cidadãos falam abertamente que o dinheiro vem "do governo federal", "da prefeitura" e dos pequenos cargos públicos indevidos que muitos abocanham para garantir o mínimo sustento. 

Se acontece em Itaguaí, porque não aconteceria em Mucajaí? Ê, paíszinho...

Noites confortáveis em uma rede

Entre uma ou outra conversa com os vizinhos sentado na porta de casa, regada à frutas e muita água para enfrentar as altas temperaturas, os dias passavam pacatos e sem muitas novidades... Até que decidi cruzar a fronteira com a Guiana.

Tchau Roraima, tchau Brasil! Next stop: Lethem, Guiana.

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