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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Férias (2)! Perrengues em Alto-Mar


Após quatro dias maravilhosos nas praias do Abraão e Lopes Mendes, seguimos de barca até Angra dos Reis, onde ainda não tínhamos planos concretos para onde ir. Durante o trajeto, foi possível ver que o clima começava a mudar. De acordo com as previsões meteorológicas, nos próximos dias haveria uma grande chance do sol não aparecer e até de chover.

Assim que chegamos no cais da cidade, ficamos matutando sobre nosso próximo destino. Poderíamos até mesmo ir para casa, se quiséssemos, e voltar quando o tempo melhorasse. Mas ao caminharmos, nos deparamos com uma embarcação bem característica e que já tinha feito parte de nossa imaginação ao ler relatos sobre Ilha Grande: Era o barco do Mestre Ernani, famoso pelos translados entre Angra e Praia do Aventureiro.

Completamente lotado de todo tipo de bugiganga - desde sacolas de compra até materiais de construção -, o barco ia ficando cada vez mais carregado, e os marinheiros se esforçavam para comportar tudo em seus devidos lugares. Estranhando a movimentação, perguntei a um deles se eles realmente estavam indo para o Aventureiro.

"Não, a gente vai até Provetá", me respondeu um rapaz, informando ainda que de lá poderíamos seguir por uma trilha e, aí sim, chegar até o destino desejado. A Praia de Provetá sempre fez parte do meu imaginário, inclusive sendo tema de diversas dissertações para a faculdade. Explico: por conta dos fortes costumes religiosos dos moradores do local, há o curioso hábito de não aceitarem o uso de biquíni e trajes "normais" de banho na praia. Para entrar na água, só com roupas cobrindo pernas e braços!

A ideia de conhecer Provetá surgiu como uma faísca que aguçou mais ainda essa vontade de retornar à Ilha Grande - só que desta vez, pelo lado oposto ao Abraão. Como o barco ainda demoraria um pouco para partir, tivemos tempo de correr até a Turisangra e garantir nossas pulseiras de visitação ao Aventureiro - Já que esta é uma praia de visitação controlada e, sem o uso destas, teoricamente não poderíamos acessá-la.

O procedimento não é tão burocrático como parece: basta apresentar identidade e informar a quantidade de dias que se pretende ficar na praia para ganhar a credencial de acesso, mediante a assinatura de um termo de compromisso. Assim que terminamos os procedimentos, voltamos para o cais. Conhecemos por lá um casal de mochileiros, a Aline e seu namorado francês, que também fariam o mesmo trajeto seguindo de Provetá à Aventureiro pela trilha T09. Ótimo, pelo menos teríamos companhia!

Percebemos logo ao entrar no barco que havia uma diferença nos preços cobrados para moradores e "turistas". Para os primeiros, R$15, e para nós, R$25. "Mas nós vamos pra Provetá, o barco não vai levar a gente até Aventureiro!", ainda tentei argumentar, mas inutilmente. Como não há concorrência, ou pagava os R$25 ou não ia. A dica é: Quando for pegar esse barco, não informe seu destino final. Você vai pra Provetá e pronto! Se estiver vestido com roupas simples e não aparentar ser um viajante com mochilão e mala, melhor ainda.

Em todo caso, R$25 ainda foram uma barganha, já que o preço normalmente praticado de Angra até Aventureiro é de R$60 em média, em dias esporádicos e irregulares. E lá fomos nós, nos entulhando pelo barco já apinhado de gente e tralhas de todo o tipo.


Fomos para a minúscula parte coberta do barco, onde as pessoas se espremiam, acompanhadas de um forte cheiro de combustível e o ronco do motor que fazia o chão do convés vibrar. Aline e seu namorado escolheram, propositalmente, talvez, um bom lugar abaixo dos coletes salva-vidas. Ficamos por ali também, e Carol logo se pôs a tentar dormir, pois sabia de antemão que iria enjoar. A duração do trajeto era desconhecida até mesmo pela tripulação, que apenas dava informações variáveis e desencontradas.


O início da viagem foi bem tranquilo, mas como diz o ditado, sempre há "calmaria antes da tempestade". Nada poderia fazer mais sentido! A embarcação deu partida às 13h, e após uma hora e meia de viagem, ainda era perceptível que nossa velocidade não era das mais rápidas - talvez por conta do peso excessivo -, e ainda não parecíamos estar sequer na metade do caminho.

Nesse período, fortes ondas começavam a fazer menção de sacudir o barco, mesmo que de maneira sutil. Alguns passageiros começavam a demonstrar os primeiros sinais de enjoo - o que incluía Carol e o namorado francês de nossa amiga.

Mais a frente, poderosas correntes de ar começavam a se formar. Foi o momento em que algumas gotas de água resolveram cair do céu, fazendo mais pessoas se comprimirem no interior do barco. O vento implacável aumentava consideravelmente o tamanho e a frequências das ondas a cada milha avançada. De repente, o chacolhar do barco passou a ser mais sentido, principalmente pelas bagagens suspensas, que começavam a cair e se espalharem pelo convés, para desespero de seus donos, que corriam atrás de frutas e objetos que rolavam pelo chão, enquanto tentavam inutilmente se equilibrar.

Sem muita paciência com aglomerações, comecei a ficar incomodado com a situação. Carol estava enjoada, mas nada fora do controle. Com o cenário cada vez mais preocupante, resolvi deixá-la e fui até a proa, para tentar obter uma visão melhor do que estava acontecendo, afinal.

A partir deste momento, o que estava ruim piorou de vez. A combinação de rajadas de vento com chuva intensa e ondas grandes levou algumas pessoas a um extremo grau de aflição. Algumas gritavam, outras rezavam em voz alta, e uma senhora chegou a desmaiar, sendo acudida pelos mais próximos. Puxei o celular e incrivelmente ele ainda tinha algum sinal. Escrevi rapidamente uma SMS para alguns amigos e familiares, descrevendo amor e saudades, mas sem deixar transparecer o receio das circunstâncias. Tão logo a mensagem foi enviada, o sinal deixara de existir.

A água batia forte no casco e a água começou a invadir a parte coberta onde muitos haviam se dirigido. Não tardou para que fechassem a porta que dividia esta parte de todo o restante do navio. De relance, consegui ainda ver Carol ao longe, com um saco na mão e uma expressão completamente afetada pelo mal-estar. A forte movimentação me impedia de chegar até lá sem cair no mar e ser levado pela correnteza. Eu sabia então que só poderia voltar a vê-la quando a tempestade terminasse - se terminasse.

Apesar de tudo isso, eu me sentia incrivelmente calmo e, de certa forma, conseguia me manter independente de tudo aquilo - como um cameraman do Discovery Channel, que simplesmente assiste ao ambiente hostil sem causar interferência. E neste caso, nada do que eu fizesse realmente poderia ajudar. Transformando o perigo em tentação, me encaminhei para a parte mais extrema da proa, como uma espécie de Leonardo DiCaprio desesperado, um Jack sem medo (e sem Rose), e contemplei umas das visões mais incríveis da minha vida: mini tsunamis de pelo menos 4 metros chocando-se violentamente contra o barco, ocasionando impactos por todos os lados e fazendo com que em determinados instantes inclinássemos tanto que era possível enxergar toda a fúria do mar não mais como um horizonte, mas sim como uma parede reta bem na nossa frente! 

O mar revolto tornara-se um quadro vivo em 4D, seus respingos (verdeiros banhos!) se misturavam com a água da chuva e era impossível saber se estávamos molhados de água salgada ou doce.

Nessa hora, voltei em mente à mais tenra infância - boa parte dela passada com minha avó frequentando igrejas evangélicas pentecostais do interior. Havia um hino na Harpa Cristã (nº 578) que viria a calhar. Lembrava-me dele sendo cantado pelos tenores e barítonos do templo, homens humildes, dotados de vozes impressionantes que pareciam penetrar a alma - e minha memória parecia realçar ainda mais. A canção diz:

Ó Mestre! O mar se revolta:
As ondas nos dão pavor:
O céu se reveste de trevas:
Não temos um Salvador!
Não se te dá que morramos?
Podes assim dormir.
Se a cada momento nos vemos,
Sim, prestes a submergir?

Impossível não imaginar um filme épico com aquela cena e essa trilha sonora! Me sentia o próprio capitão, puxando velas e mastros, içando a âncora e girando o timão.

Mas logo voltei pra realidade e vi que toda a conjuntura ali era bem mais séria. O verdadeiro capitão e seus tripulantes pareciam transtornados na cabine de comando, e logo uma visão entre as ondas nos fez estremecer. Próximo à Ponta dos Meros - extremo rochoso da Ilha que serve de divisor natural entre as águas da baía e do oceano -, a turbulência em alto-mar mostrava seu lado mais cruel: Podíamos visualizar ao fundo uma outra embarcação, de menor porte, indo fatalmente em direção ao costão.



Um perigo iminente talvez não tão óbvio para os mais leigos, mas que foi rapidamente notado pelo capitão - o cara não deve se chamar "Mestre" à toa. Logo se via os homens do mar apressados, amarrando cordas, utilizando ferramentas e sinalizando para o outro barco. Íamos em direção ao ápice daquela tempestade, com a missão de resgatar as vítimas daquele incidente. Percebendo a intenção, alguns passageiros se assustaram ainda mais e fizeram coro contra a aproximação daquela área tão perigosa.


Mas conforme íamos nos aproximando, constatávamos a olho nu o desespero dos outros passageiros "do outro lado". Acenando exasperadamente, eles compunham-se majoritariamente por crianças e mulheres, que choravam copiosamente a cada onda avançada.


Foi então que a tempestade resolveu dar uma trégua. Os ventos e as ondas diminuíram e a chuva ficou mais fraca. Era o que precisavam os tripulantes para agilizarem mais ainda seus procedimentos e alinhar ambas as embarcações, acorrentando uma a outra, como um reboque, até a terra firme. Com um naufrágio impedido, em pouquíssimo tempo já seguíamos em frente, rumo à Provetá, com o barco "Cristo Vive" são e salvo amarrado ao nosso.


Com o mar enfim sossegado e nossas esperanças de chegarmos todos vivos ao destino reacendidas, não foi difícil concentrar-me novamente ao final da canção:

 “As ondas atendem ao meu mandar:
Sossegai!
Seja o encapelado mar
A ira dos homens, o gênio do mal:
Tais águas não podem a nau tragar,
Que leva o Senhor, Rei do Céu e mar,
Pois todos ouvem o meu mandar:
Sossegai! — sossegai!
Convosco estou para vos salvar:
Sim, sossegai!”

A nova concentração de pessoas recém chegadas à proa, recolhendo seus pertences caídos (e alguns perdidos) tomou parte do barco, impossibilitando-me de seguir até onde Carol estava. Aproveitei o tempo imobilizado para falar com um dos "heróis" que ali estavam, um tripulante aparentemente da minha idade, moreno e atarracado, que após todo o esforço, relaxava contemplando o mar como se nada tivesse acontecido.

Mansamente, ele me explicou então que o leme do outro barco havia partido e que por isso eles haviam perdido a direção. Sem controle das coordenadas, estavam à deriva e, conforme tínhamos visto, se chocariam contra o costão em questão de minutos. "Só não aconteceu mais rápido", continuou ele, "porque estava chovendo forte, e quando chove as ondas perdem um pouco da força." Incrível como tudo parecia se encaixar - um atraso ou a ausência da chuva poderia ter resultado na perda de várias vidas naquele dia. Agradeci-o pelas informações, não sem antes ter ouvido um sincero "boa sorte!" dele, que já sabia os percalços que enfrentaríamos ao prosseguir pela trilha molhada até o Aventureiro.


Mal podíamos acreditar, mas sim, após 4h30 de viagem havíamos chegados inteiros à Provetá! Carol, ainda visivelmente enjoada, foi ao banheiro, bem como nosso casal de amigos. Aliás, acho que todos os passageiros resolveram ir ao banheiro ao mesmo tempo. Passado os minutos, já estávamos pisando nas areias de Provetá e procurando o início da trilha.


Aí você pensa: "Ufa, que bom que tudo terminou bem", não é mesmo? Nada disso, amigo. Nada disso. O que viria pela frente seriam dias muito mais difíceis...

Um comentário:

  1. Aguardando a próxima postagem ansiosamente!!!

    Atenciosamente
    Joaozinho

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