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quarta-feira, 24 de abril de 2013

De volta à Região dos Lagos (RJ) - 1º dia: A organizadíssima Barra de São João

Jorge vem de lá da Capadócia, montado em seu cavalo, na mão a sua lança...

E eu, um pouco mais humilde, venho lá do subúrbio do Rio de Janeiro, montado em minha bicicletinha aro 20, na mão minha garrafinha de água e um kit de remendo.



Em comum com o Jorginho, além de matarmos um leão dragão por dia, eu e ele também somos muito mal-interpretados: Ele, cavaleiro imponente sob seu alazão, padroeiro da Inglaterra, geralmente é chamado de Ogum-não-sei-das-quantas nas macumbas mais fuleiras do Brasil. Eu, ciclista limpinho e cheiroso, em posse de minha dobrável chic, sou confundido com mendigo, andarilho, mal-feitor, e nunca acertam meu nome: Wendreul, Wellington, Weldel, Endel...

É, a vida não é mole, não.
Por isso, de 19 a 23 de abril, decidi homenagear o Seu Jorge e aproveitar o feriado que leva o seu nome, para realizar mais uma cicloviagem pela Região dos Lagos, dessa vez partindo de Unamar, em Cabo Frio, até as localidades mais próximas: Barra de São João, Búzios e Rio das Ostras.

Por isso, vista sua armadura, aponte suas armas e prepare o coração: a pedalada vai começar.

20/4/2013 - Unamar x Barra de São João

Eu e minha digníssima esposa conseguimos sair uma hora mais cedo do trabalho ainda na sexta-feira (19), e corremos contra o tempo para conseguir comprar as passagens de ônibus. Bicicletas dobradas, chegávamos à terrivelmente mal localizada Rodoviária Novo Rio para embarcar no ônibus que nos levaria do Rio até Unamar.

Chegamos ao nosso destino às 23h, surpresos pelo pouco congestionamento que enfrentamos pelo caminho - basicamente, só na Ponte Rio-Niterói, o que é comum todo dia. Devidamente alojados na casa dos simpáticos tios da Carol, dormimos uma excelente noite de sono, sonhando com o próximo dia.

Unamar é um bairro de Cabo Frio, pertencente ao 2º distrito de Tamoios. Relativamente afastado do centro, possui um aspecto bem residencial, dividindo espaço com alguns condomínios de alto padrão (Long Beach, Verão Vermelho, Orla 500 e Santa Margarida, só para citar alguns). A praia não é das mais transparentes, mas também não é poluída. Venta forte em Unamar, e as ondas fortes são um atrativo para os diversos campeonatos de surf que ocorrem por lá. Apesar disso, dá pra mergulhar tranquilamente, pois a inclinação da praia é suave, a areia é fina e não existe correnteza puxando para o mar, apesar das ondas.


O caminho para Barra de São João corta toda a Av. Beira Mar ao longo do distrito de Tamoios, passando pelas praias de extensa restinga, com águas que vão ficando cada vez mais convidativas. Seguindo em frente ainda pela orla, outros bairros vão surgindo, como Aquarius e Samburá, mesclando diferentes estilos de moradia, ora luxuosos, ora de classe-média baixa. No passado, diversos loteamentos foram colocados à venda na região, em forma de condomínio de terrenos, mas sem muito planejamento. Desta forma, surgiram várias casas que não seguem um padrão nas construções, além de terrenos vazios, nem sempre murados, que ocupam lacunas entre as residências.


Também há a opção de ir "por fora", através dos trechos de ciclovia e acostamento da Amaral Peixoto, mas nesse caso perde-se a paisagem praiana, que tem o poder de minimizar os quase 8 km que ligam Unamar até a ponte de Barra de São João, divisa natural entre Casimiro de Abreu e Cabo Frio.

Vista da Capela de São João Batista, no final da Av. Beira Mar

Sim, Casimiro de Abreu! Pois da mesma forma que Unamar pertence à Cabo Frio, Barra de São João faz parte de Casimiro, conhecido até então como um lugar de clima serrano. Não é de se espantar que a orla da Barra, como chamam os locais, tenha apenas 4 km, porque a saída para o mar de Casimiro de Abreu é realmente bem pequena. Talvez, justamente por isso, é uma das orlas mais bem cuidadas do Brasil.


Ao chegar no final da avenida, a Capela de São João Batista aparece ao fundo, imponente. Para chegar até ela, é necessário atravessar a ponte que passa sobre o rio São João, que dá nome ao distrito.


Na verdade, existem duas pontes, sendo a primeira apenas uma ruína do passado, já desativada e com finalidade meramente turística. A outra, porém, é a funcional, sempre movimentada, mas acredite, é a única parte desorganizada de Barra de São João. Todo o restante do distrito é absolutamente impecável.




Se a capela já é linda vista ao longe, de perto é mais bonita ainda. Mas é em suas laterais que encontram-se suas maiores surpresas. 



  À direita da capela, o cemitério de Barra de São João. A exemplo do cemitério de Saquarema, esse também é um dos poucos cemitérios do mundo de frente para o mar. 




É lá que está enterrado o corpo do poeta Casimiro de Abreu, que morreu mais novo que eu, aos 21 anos, deixando para trás belas poesias e um nome que batizaria uma linda e próspera cidade.

Se o lado direito da capela é reservado às memórias, onde a paz e a tristeza se encontram, é no lado esquerdo que a alegria e a felicidade se encontram: Por um pequeno caminho na vegetação, chega-se à Prainha, onde uma faixa de areia separa...

...as águas do rio...

...das águas do mar.

Em frente à Prainha, há um morro de fácil acesso, um mirante natural, que facilita a visualização de uma difícil escolha:

Mergulhar no rio ou no mar?


Ainda no mirante, ao olhar para trás tínhamos vista para a ponte quebrada com o Morro de São João ao fundo, com uma estreita faixa de areia que insiste em invadir o espaço do rio.



A vista de dentro da faixinha de areia

É claro que mergulhamos tanto no rio quanto na praia.


A praia tem um azul inconfundível, fica funda em poucos passos e oferece muitas ondas.


Já o rio tem águas bem mais serenas, é rasíssimo, fazendo a alegria das crianças cujos pais as observam, despreocupadamente, no quiosque ao lado. O único perigo é de algum pequeno gritar de dor ao ser mordido por um siri.

Mas o que impressiona mesmo em Barra de São João é seu urbanismo. Com ruas largas e simétricas, possui uma orla para o mar e outra para o rio, com a rodovia principal passando pelo meio do território. Apesar de ser feriado, tudo estava extremamente vazio, transparecendo uma aura de tranquilidade, organização e limpeza que eu poucas vezes vi no Estado do Rio de Janeiro.

Saindo da Prainha, vamos em direção ao "Praião", logo após a capela, onde prossegue a costa casimirense.




Outra coisa que chama a atenção são os avisos espalhados por todos os cantos da praia, que deixam bem claro a vocação de lugar tranquilo. Veja só esses:

"Cidade monitorada por câmeras 24 horas"
"Proibido carro de som"

"Proibido usar equipamentos com som que pertube o sossego alheio"

Para quem busca agitação, Barra de São João pode ser decepcionante. Mas para quem quer sossego e descanso, não existe opção melhor. Até o barulho do mar parece ser um convite para deitar na areia e tirar um cochilo. Na ampla orla da praia, alguns quiosques bem ordenados tocavam músicas, tão baixinhas que mal dava pra ouvir na rua. Debaixo dos coqueiros, famílias aproveitavam a sombra para assar uma carne, em churrasqueiras apropriadas, sentados em mesas e cadeiras que não interferiam no ambiente.

Por essas e por outras, entendemos o porquê de Barra de São João ser tão procurada por idosos e aposentados que desejam ter uma casa de praia ou até mesmo fixar residência.


Ao final do distrito, em direção ao município vizinho de Rio das Ostras, o calçamento dá lugar à uma simpática estradinha de terra batida, bem espaçosa e vazia, favorecendo um passeio de fim de tarde.

Após um dia corrido até chegar a Região dos Lagos, Barra de São João foi sem dúvidas uma excelente escolha para aproveitar uma praia, sem abrir mão de um programa tranquilo e revigorante.

Confesso que criei muitas expectativas com Barra de São João e todas elas foram completamente superadas. O distrito me encantou e pretendo voltar um dia... quem sabe?

Bônus

Apesar de termos pedalado somente pela orla da praia no primeiro dia, no terceiro dia fomos para Rio das Ostras, e como Barra de São João faz parte do caminho, resolvemos passar ao lado do rio.



Após passar por uma bem cuidada pracinha, onde localiza-se o coreto e um museu, avista-se uma estátua do poeta Casimiro de Abreu sentado em um banquinho admirando o rio São João.

E "admiração" não é uma palavra ao acaso. O rio, com vista para o morro homônimo, é inspirador, ideal para uma caminhada com calma em sua margem.




Ao longo do rio, alguns píers servem para os pescadores, bem como para embarque e desembarque dos barcos que realizam passeios em suas águas, com preços a partir de R$10. Infelizmente não vimos um barco a serviço, apenas a placa.




Em determinados trechos da rua paralela ao rio, surgem construções históricas muito bem preservadas, que parecem ser sido transferidas direto de Paraty. São casas, lojas e até mesmo uma delegacia que utilizam-se da estrutura dos casarios, garantindo-lhes o uso necessário para que não caiam no esquecimento e falta de manutenção.


E por fim, uma surpresa. O rio São João faz parte dos Caminhos de Darwin no Rio de Janeiro. Já é a segunda vez que pedalo próximo às regiões em que o naturalista inglês esteve ao passar no Brasil, a primeira foi nas beachrocks de Jaconé, em Saquarema.

Vejam só vocês, um cristão no feriado de São Jorge seguindo os caminhos de Darwin. Mas quer saber o pior? No segundo dia fomos jogar Búzios!

Um comentário:

  1. No finalzinho do texto tem um erro: "Já é a segunda fez".. ;)
    Mas tirando isso o conteudo esta muito bom..

    ResponderExcluir

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