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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Pedalando pela Região dos Lagos (RJ)

Pois é, o mundo não acabou no dia 21 de Dezembro.

Logo, o que fazer no dia 22/12/2012? Pedalar, é claro!

E lá fomos nós, eu e minha esposa, rumo à Maricá (o "Portal da Costa do Sol"), de onde faríamos, em 3 dias, aproximadamente 110 km cruzando as cidades de Saquarema, Araruama, Arraial do Cabo e Cabo Frio, pedalando pelas desertas estradinhas de terra que beiram a orla do caminho.


A Região dos Lagos é famosa não só pelas suas belas praias lacustres, como também pelo azul cristalino de seu mar. Não raramente, a região é referida como "o Caribe brasileiro". Há quem compare as suas praias com as da Grécia e da França. Será mesmo? Fomos conferir!

O sol nem sequer havia dado as caras e já estávamos no ônibus que partia do Rio de Janeiro até Maricá. As nossas bicicletas, Blitz City aro 20, dobráveis, já estavam na mala da condução, devidamente dobradas.


O ônibus que liga as duas cidades, distantes 60 km uma da outra, custa R$11, mas se você tem o Bilhete Único Carioca, a passagem sai por R$4,95. Veja os horários aqui.

Por volta das 9h, chegamos no simpático Terminal Rodoviário de Maricá. A primeira providência foi encher a garrafinha de água no bebedouro. Como você vai ver em nosso relato, água potável é um problema sério na região. 


Em poucos minutos pedalamos os 4 km que separavam o centro da cidade da praia mais próxima, a Praia da Barra. Dali, seguiríamos o caminho da estradinha de terra que vai beirando a praia e que, supostamente, nos levaria adiante.


Vi um senhor regando as plantas do quintal de sua casa em frente à praia e pedi educadamente que enchesse nossas garrafinhas. Em um tom quase grosseiro, o homem negou-se a nos oferecer água. "Essa água é de poço, salobra pra diabo!". E continuou a regar suas plantas, sem fazer menção de, talvez, pegar em casa.

Que saudades da Costa Verde e dos caminhos da Rio-Santos, onde a água brota das pedras, onde em qualquer casinha um caiçara simpático tem sempre uma boa prosa e um copo d'água pra oferecer. A Região dos Lagos, ao menos nessa parte, perde feio. Seus moradores, quase sempre oriundos da região metropolitana do Rio de Janeiro, possuem lá suas casas de veraneio, onde passam feriados e finais de semana, eventualmente alugando-as para algum incauto a troco de uma pequena fortuna.

Poderia ser cedo demais, mas defini naquela hora meu conceito sobre a região: Nada de pescadores, quilombolas ou caiçaras integrados ao ambiente. Aqui, há apenas uma classe média que apossou-se de áreas de restinga e, nas horas vagas, apenas "consome" a paisagem, em suas mais diversas maneiras.

Viagem que segue, lá vamos nós pedalando e descobrindo que a estradinha de terra não é contínua... ora ela vira pura areia da praia, ora deixa simplesmente de existir. Nesse momento, o ideal é partir para a Av. Central e seguir os caminhos do asfalto.

Nas proximidades da Praia do Cordeirinho, uma parada estratégica para comprar frutas e um delicioso açaí. Pedi por água mais uma vez, agora para a dona do estabelecimento que me vendera os produtos. Não foi com muita surpresa que acompanhei sua reação: Meio desnorteada, apanhou uma garrafinha de água mineral do estoque e despejou no meu squeeze. Não era bem o que esperava, mas ela não cobrou e então agradeci e segui viagem. Foi aí que percebi que, com exceção de alguns poucos carros, boa parte do movimento da estrada era composto por caminhões pipa. Interessante ver tantas casas bonitas, localizadas em ruas esburacadas e dependendo de fontes não-naturais de água.

Mas a região é bela, e quanto menos interferência humana, mas linda vai ficando. Já havíamos pedalados bons quilômetros planos e encarando trechos de praia deserta. Resolvi entrar na água pela primeira vez e quase congelei. A água é realmente fria, meus pés arroxearam ao entrar nas águas agitadas daquele mar, próximo à Ponta Negra.


Chegando ao final de Maricá, na Praia de Ponta Negra, algo impensável: Uma multidão se espremendo, entre cadeiras e guardas-sois, mesmo com quilômetros de praias desertas, contínuas, logo ali ao lado. Parece que o povo gosta mesmo de uma aglomeração.


Ponta Negra - que bem que poderia se chamar "Ponta Fria" - nos reservava ainda outras interessantes atrações, como por exemplo o seu famoso Canal. Dependendo do seu ângulo de visão, o canal aparenta ser algo bem próximo aos cânions encontrados na região nordeste brasileira.



Seguimos pedalando e Ponta Negra vai ficando para trás. Através de um pequeno atalho pela Estrada Velha de Jaconé, economizamos alguns quilômetros caso optássemos por seguir pela estrada asfaltada até a Praia de Jaconé, já em Saquarema. O pequeno caminho apresentava as primeiras subidas do percurso, mas nada alarmante.

Em poucos minutos, surgia Jaconé, um lugar que eu ansiava muito para conhecer.



Explico a razão da minha curiosidade pelo local: Foi aqui, lá pelos idos de 1832 que o surfista Charles Darwin, então com 23 anos, resolveu pegar uma onda na Praia de Jaconé, e acabou deparando-se com as beachrocks, umas pedras que a princípio ele confundiu com crack, mas logo viu que tratava-se de um interessante patrimônio geológico, uma vez que são exemplos das remotas eras em que ainda estávamos ligados geograficamente à África.


Ok, minha versão sobre como Darwin conheceu Jaconé não é muito oficial, existem outras. A questão é que eu realmente queria conhecer o local, tocar nas pedras, dar um mergulho. E fui correndo até lá!



A paisagem é belíssima, e sua importância biológica, histórica e cultural é imensa. Uma pena que a construção de um porto ameaça seriamente a existência dessas pedras e a sustentabilidade da comunidade local.




Etapa realizada, hora de continuar pedalando pela estrada de barro que agora, pela primeira vez, alargava-se bastante e começava a apresentar os primeiros excessos de terra que nos faria atolar diversas vezes.


Ao menor sinal de atolamento, a solução é uma só: Esvazie um pouco o pneu. Assim, o atrito com o chão fica maior e a possibilidade de atolar - e consequentemente cair da bicicleta - é menor.

Pouco a pouco, fomos chegando em uma parte da Praia de Jaconé com algum comércio. Já passava das 13h30, e resolvemos dar uma parada para almoçar, num simpático restaurante que oferecia um delicioso prato de Contra Filé com Fritas, por R$14. As porções eram generosas e mesmo dividindo a refeição, tivemos dificuldade em comer tudo.


A câmara de uma das bicicletas apresentou um vazamento. Enquanto eu a consertava ali mesmo, Carol resolveu tirar uma soneca na praia.


Fomos sair de lá só por volta das 15h30, já bem alimentados e com combustível suficiente para alcançar o destino do dia: Saquarema.

Pelo caminho, diversos bares que pareciam vender todo tipo de bebida, menos água. Não há água, mas há H2OH! Alguns moradores locais passam pela gente, pedalando. Muitos com galões de 20 litros do precioso líquido amarrados no bagageiro.


O asfalto voltou a aparecer e em poucos quilômetros, já avistávamos a Igreja Nossa Senhora de Nazareth, símbolo de Saquarema. Um imponente templo situado no alto de um morro e rodeado pelo mar, visível a distância.


Tão logo chegamos na cidade (um pouco mais tarde do que o previsto), começamos a buscar um camping para ficar. E foi essa nossa primeira decepção com Saquarema: Uma cidade famosa por ser "A Capital do Surf Brasileiro", acostumada a receber o público mais jovem/aventureiro, não tinha sequer um camping ou até mesmo um hostel por perto.

Confesso que, acostumado com a atmosfera roots de Ilha Grande, me surpreendi negativamente com o clima elitista de Saquarema. Será que eu tinha chegado em Búzios e não sabia? Foi necessário pedalar mais uns 4 km para chegar no único camping da cidade, bem mediano, relativamente caro (R$20 por pessoa) e completamente afastado do centro da cidade e das principais atrações. 

Resultado: Já era noite quando pudemos, enfim, sair do camping através de uma estrada mal iluminada e poder conhecer um pouco mais da cidade.


Apesar do caminho sombrio, chegamos bem na praça principal da cidade, próximo a ponte que liga a Praia da Vila à Praia de Itaúna. Lanchamos em uma interessante feirinha noturna e aproveitamos para conhecer a Igreja, que de noite, ganha uma iluminação especial e fica muito bonita.



No fundo da Igreja há um cemitério, único do Brasil projetado sobre o mar. Apesar de sinistro, vale a pena visitar o local.


Antes das 23h já estávamos alojados novamente no camping, prontos para uma boa noite de sono.

23/12/2012


O dia enfim amanhece, e da janela da barraca - que também é dobrável - consigo ver as bicicletas aguardando-nos para mais um dia que prometia! A ideia era passar pelas praias de Itaúna e Vilatur, ainda em Saquarema, e depois seguir rumo à Praia Seca, já em Araruama, onde encontraríamos meu amigo Pedro Bravo e de lá seguiríamos para Monte Alto, em Arraial do Cabo. 

Agradecemos ao dono do camping e seguimos, mais uma vez, em direção ao Centro de Saquarema, para atravessar a ponte e visitar a Praia de Itaúna, conhecida como o "Maracanã do Surf".


Não há estrada que beire a orla, para visualizar a praia é necessário entrar em alguma esquina da Av. Ocêanica. Uma bonita visão do outro lado da Igreja apresenta-se e o barulho das ondas é bem forte. Dentro d'água, poucos se arriscavam, apenas os surfistas.


A praia é gigante e vai seguindo seu caminho ininterruptamente. Voltamos à Avenida, seguindo em frente. O remendo do dia anterior parecia não ter surtido efeito e volta e meia tínhamos de parar para calibrar o pneu.


Buscando sempre pedalar o mais próximo da orla, uma hora a estrada acaba e vira uma trilha arenosa. Tentamos seguir por outro caminho, mas entre diversas subidas de chão de barro, acabamos nos perdendo feio e distanciando-nos muito do mar. Com certo esforço, voltamos. A solução seria enfrentar os 3 km da Praia da Reserva de Vilatur, arrastando a bicicleta pela areia mesmo.


E que caminho lindo teríamos pela frente! A praia seria só nossa, com seu mar azul e areias branquíssimas. As ondas eram tão fortes que, mesmo a uns 30 metros de distância, sentíamos os respingos das gotas d'água.



Pneus novamente esvaziados, para facilitar o transporte, íamos carregando as bicicletas naquela linda paisagem, sem sentir o peso da "bagagem", uma vez que o lugar era tão bonito que nos extasiava com sua beleza.


Já chegando próximo ao fim da reserva, avistamos uma estrada de terra. Seguindo por ela, saímos da área do Parque Estadual da Costa do Sol.


Infelizmente, a partir daí, teríamos uma série de contratempos que culminaria no término prematuro da viagem. Deveríamos ter seguido pela Estrada da Praia Seca, mas nos perdemos e quase fomos parar na movimentada Rodovia Amaral Peixoto, a quase 9 km do caminho certo!

Para piorar a situação, a câmara de uma das bicicletas não estava muito boa e quando fui enchê-la a bomba quebrou! Era domingo, estávamos no meio do nada... não havia muito o que fazer. Dobramos a bicicleta e esperamos por uma solução, que chegou logo: Um ônibus que seguia para o distrito de Bacaxá, em Saquarema.

Custando apenas R$2,50, o ônibus logo nos deixou no Terminal Rodoviário do distrito, onde haviam ônibus de hora em hora para Cabo Frio. Pegamos esse outro ônibus, da Auto Viação Salineira. Custou-nos R$3,80, mas pelo trajeto (que passa por dentro de Araruama, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, até chegar em Cabo Frio), valeu muito a pena, e pode ser uma excelente opção para quem deseje chegar até a região baldeando, sem se preocupar muito com o tempo da viagem.

Como chegar em Cabo Frio já fazia parte de nossos planos (seria o destino do nosso último dia), apenas adiantamos as coisas. Ficamos na casa de parentes da minha esposa e aproveitamos para ir à Arraial do Cabo, conhecer suas belas praias e fazer um passeio de barco. 


O passeio tem preço tabelado, as embarcações cobram R$40 por pessoa, mas negociamos e o valor caiu para R$50 o casal. Vale a pena, não só pela cortesia de água e refrigerante (haha!), mas também pelo visual das praias de um azul cristalino, mais azul do que o céu. Destaque para a Ilha do Farol e suas dunas, considerada a praia mais perfeita do Brasil.





Se um dia passar por essas bandas, não deixe de conhecer Arraial do Cabo e suas belas praias: Atalaia, Prainha, Praia dos Anjos, Praia Grande e, é claro, a Ilha do Farol.


E assim finalizamos nossa viagem - por enquanto. Não engolimos essa história de abortar uma viagem por conta de uma bomba quebrada. Vamos melhorar a qualidade de nossos equipamentos e, um dia, refazer essa viagem,  sem deixar de conhecer as praias lacustres de Araruama, que ficamos devendo dessa vez. Lugares como a Praia Seca, Arubinha, Ponta dos Pneus, Massambaba e Monte Alto merecem ser visitados.



Até breve, Região dos Lagos!

8 comentários:

  1. Muito legal !
    fomosdebike.blogspot.com.br

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  2. Show de roda o seu pedal! Um belo relato abrilhantado por lindas fotos. Parabéns á sua esposa por participar dessa trip com você. Aqui em São Paulo, temo a cidade de Ilha Comprida, onde podemos pedalar pela areia até a cidade de Cananeia. Ilha Comprida tem 74 Km de praias, na sua maioria deserta. Se um dia quiserem fazer esse pedal me avisem.
    Mais uma vez parabéns e um grande cicloabraço!
    antigao.waldson@globomail.com

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  3. Fala, Wendell!

    Então... agora em meados de abril ou maio - vai depender de terminar de aprontar a minha abóbora para viagem - eu vou descer de Juiz de Fora até São Pedro D'aldeia, passando por Teresópolis, Friburgo, Lumiar e Casemiro de Abreu. Uma vez lá em São Pedro, devo ter de ficar por mais ou menos 15, 20 dias, daí, quem sabe se não rola um pedal até Saquá?

    A única grande droga de andar comigo não é a velocidade. Eu não "ando" de bicicleta, eu "passeio"! Tô foraço de sentar na bike pra viajar e sair "virando contra-relógio". Meu problema é justamente a minha bike, que não "calça" pneus mais largos que 700x23, ficando bastante chato e aborrecido andar em estradas de terra. Só posso rodar em asfalto bom. Isso é uma droga! Mas... tenho que me divertir com o que tenho à mão, né?

    Se quiser, podemos levar um papo mais pra frente. De minha parte, seu blog já havia me dado essa sugestão: dar um "estica" de São Pedro até Saquá pra fazer umas fotos.

    Pelo jeito, já vi que você conheceu "o cara", né? Waldson "Antigão"! Esse é ferão na logística do cicloturismo e eu também sou "discípulo", "aluno", "seguidor", do mestre Waldson. E você ainda tem mais a ganhar prestando atenção nele, agora que ele entrou de cabeça nas dobráveis, né? Em breve as fábricas estarão colocando nelas as coisas "boladas" pelo Waldson para torná-las boas "tourings".

    Gostei do post, viu? Estou começando a me acostumar com a fotografia "de viagem de bike" e "fuçar" em blogs como o seu me da boas idéias.

    Mais pra frente eu te paso um e-mail com as datas certas e meu celular. Se tiver afim, podemos nos encontrar em Saquarema, valeu?

    Grande abraço!

    (http://joaoramalho63.wordpress.com)

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  4. Grande João,

    Rapaz, de Juiz de Fora até a Região dos Lagos via região serrana? Esse é o pedal dos sonhos, quisera eu um dia poder fazer. Acho que só "por etapas" mesmo, haha.

    Mas a ideia de São Pedro até Saquarema é sensacional, vamos ver isso sim, sendo no final de semana pra mim tá ótimo. Também não corro - longe disso, nem dá pra exigir muito de uma bicicletinha de aro 20, que até as crianças riem quando veem passar pela rua, haha.

    Vou procurar desde já um roteiro que passe por estradas boas e ao mesmo tempo não fique tão longe dos acessos às praias. Pedalar pela Amaral Peixoto é triste :(

    Quanto ao nosso ídolo maior, rapaz, ele é outro que fico só admirando... Aquela pedalada dele do "Litoral Paulista de fio a pavio" mexeu comigo, é um dos meus sonhos a serem realizados em breve.

    Me passa seu número e e-mail depois sim, e agente vai trocando mais ideias.

    Abs!

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  5. Quando fizer a viagem novamente pode ficar aqui em Praia Seca onde estou morando com minha companheira a 5 meses. Somos do RJ mais resolvemos morar aqui pela tranquilidade e para sobrar mais dim dim para nossas viagens de bike. Tambem viajamos de dobravel. Abraço. Fabiocordeiron@gmail.com

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  6. Da próxima vez que vierem para a região dos lagos vamos nos encontrar sou o Roberto Pires do site tottalmarketing e criador do @BikeJáBrasil pagina no face que promove o movimento #mobilizesepelamobilidade

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  7. Da próxima vez que vierem para a região dos lagos vamos nos encontrar sou o Roberto Pires do site tottalmarketing e criador do @BikeJáBrasil pagina no face que promove o movimento #mobilizesepelamobilidade

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