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domingo, 29 de julho de 2012

Volta a Pé Frustrada em Ilha Grande (RJ)

Leia também: A Volta a Pé Bem-Sucedida em Ilha Grande!

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Há quem diga que Fernando de Noronha é um lugar paradisíaco. Planejam uma longa viagem, pagam valores exorbitantes de passagem, hospedagem, além das taxas de conservação e tudo o mais.

E há simplesmente quem resolva pegar uma barca de R$4,50 e, através de trilhas íngremes e arborizadas, conhecer o verdadeiro paraíso: Ilha Grande.


A Ilha, localizada no maltratado município de Angra dos Reis, possui uma exuberância natural que deixa qualquer um emocionado.

Minha primeira incursão à essa terra abençoada deu-se em janeiro de 2012. Saí de casa com minha esposa rumo à Mangaratiba, cidade vizinha de Angra dos Reis. De lá, também há um terminal de barcas que nos leva até a Ilha, em uma viagem de aproximadamente 80 minutos.

Saímos em um feriado, data típica em que eu opto sempre por não viajar, justamente por não gostar de tumultos. Ao chegar no terminal de barcas, vi o que já imaginava: Uma fila gigantesca, de centenas de metros, com milhares de pessoas serpenteando. O nervosismo tomou conta de mim e por muito pouco não desisti da viagem. Imaginei não ser possível alocar toda aquela multidão em uma só embarcação. Por sorte, a empresa concessionária desse meio de transporte resolveu disponibilizar uma barca extra.

O ponto de chegada das barcas em Ilha Grande é na Vila do Abraão, o "centro" da Ilha. Um típico vilarejo de pescadores que cresceu juntamente com a exploração turística, mas que nem por isso perdeu suas características naturais: simplicidade e acolhimento.

Ainda assim, optamos por não ficarmos ali. A praia da Vila é bonita, mas não chama a atenção. As pousadas e hotéis espalhados juntamente com as lojas eram um bom sinal de que não estávamos completamente isolados do mundo; mas queríamos justamente nos afastar de tudo.

Deixamos a horda de gente no centro e, decididos a acampar, fomos para o Camping Acorde, (diária de R$35,00 - casal). O camping localiza-se na Praia de Palmas, à aproximadamente uma hora de distância da Vila do Abraão. Acessível por trilha ou boat taxi, Palmas representava tudo que poderíamos querer:  Com bem menos infraestrutura do que a Vila, mas com o mínimo de conforto e algumas opções de alimentação e hospedagem, o local era "o outro lado" da Ilha, sem tanta agitação e desenvolvimento.
Nos dois dias que ali ficamos, apaixonei-me por Ilha Grande. Sua natureza, seu povo, suas belas praias... Através das trilhas, quase levei minha esposa à exaustão rumo às lindas praias de Lopes Mendes, e Santo Antônio.


Em Lopes Mendes, mesmo com um certo movimento de pessoas no início da praia, os seus 3km de extensão vão diluindo a quantidade de pessoas que se espalham sobre ela. Sua areia branca e fofa em conjunto com suas ondas de água cristalina são belíssimas, mas não há quem resista à uma soneca quando se chega lá. Afinal, de Palmas até Lopes Mendes são mais algumas horas de trilha.

 Adoramos.

Entretanto, aquela viagem não terminou por ali. Como toda boa viagem que a gente faz, os trajetos, paisagens e lembranças ficam martelando na nossa cabeça. Eu precisava voltar.

Enquanto não voltava, pesquisava diariamente sobre Ilha Grande. E logo descobri diversos relatos de aventureiros que resolveram dar a volta à pé na ilha. Que ideia fabulosa! Não via a hora de fazê-lo também.

Poucos meses depois, em Abril, aproveitei que meu amigo Pedro estava de férias do trabalho e consegui convencê-lo a entrar de cabeça comigo nessa arriscada aventura.

A ideia: Uma volta a pé na Ilha Grande, em cinco dias, acampando e cozinhando com o fogareiro, gastando o mínimo e divertindo-se o máximo.


Munidos de um mapa detalhado da ilha, planejávamos nossa trilha da seguinte maneira:

1º Dia - Vila do Abraão > Palmas > Lopes Mendes > Santo Antônio
2º Dia - Caxadaço > Dois Rios > Parnaioca
3º Dia - Praia do Leste > Sul > Aventureiro > Provetá > Araçatiba
4º Dia - Ubatubinha > Bananal > Japariz > Saco do Céu > Abraão
5º Dia - Tiraríamos como uma dia extra, caso atrasássemos em algumas das trilhas anteriores. Se tudo ocorresse bem, subiríamos o Pico do Papagaio.

Parece simples, não é?

Mas uma sucessão de erros e falta de planejamento de nossa parte fez tudo ir por água abaixo. Subestimamos - e muito! - as dificuldades das trilhas, seus acessos e nossos meios de manutenção.

O inferno começou logo ao sairmos da barca e pisarmos nossos pés no solo de Ilha Grande. A mochila de Pedro, recém comprada, mostrou-se mais vagabunda do que já aparentava ser. A alça arrebentou e tivemos que ficar um bom tempo na Vila do Abraão para costurá-la.

Costuramos, seguimos em frente e... de novo, arrebentou. Mais um rápido remendo e... mais uma vez, caiu. Estava complicado. Seguimos a trilha em direção a Palmas, que nem é tão complicada assim, mas logo sentimos a dificuldade em seguir em frente com nossas mochilas pesadíssimas. Cada um devia estar carregando por volta de 12 a 15kg de bagagem, o que mostrou-se completamente inviável.

Chegando a Palmas, paramos um pouco. Estava bem mais vazia do que no feriado. Um senhor se aproximou e nos ofereceu um serviço de camping por R$10, com chuveiro quente e cozinha. Tentador, estávamos realmente cansados. Mas não, não iríamos parar ali. Com um pouco de energia que nos restava, seguimos em frente, passando por outras praias menos conhecidas da ilha até passar pela entrada da Praia de Santo Antônio.
Santo Antônio seria, então, nosso destino no primeiro dia. Ainda faltavam algumas horas para o dia terminar, então seguimos em frente a trilha, sem entrar na bifurcação. Logo chegávamos à bela praia de Lopes Mendes, onde finalmente tiramos as pesadas mochilas das costas e nos permitimos dar um mergulho.

Mergulho dado, alma lavada. Hora de subir a trilha antes do anoitecer, para garantir nosso lugar no primeiro camping selvagem de nossas vidas.
A trilha de Lopes Mendes é muito boa e tranquila, mas a partir da bifurcação para Santo Antônio, a coisa piora um pouco. O caminho se estreita, fica mais íngreme e com ângulos mais difíceis de se posicionar.

A despeito de tudo isso, chegamos na praia, que como de praxe estava vazia. Era um excelente lugar para acampar!
Mal havíamos montado a barraca e a noite caiu.
 É difícil definir "noite" em um ambiente praiano e aberto como aquele. A luz iluminava de tal maneira que, mesmo às 20h, parecíamos estar sob um dia claro de manhã.
Com a barriga roncando, resolvemos enfim dar cabo a alguns exemplares de macarrão instantâneo e biscoitos que carregávamos nas mochilas. Acredite, queríamos passar 5 dias embrenhados no mato sobrevivendo de miojo e doces. Nossa inocência era de dar pena...

A noite não foi das melhores. Pedro, dizendo-se com calor, não queria fechar a cortina da barraca. E eu, provavelmente temendo o bicho-papão, não queria dormir de jeito nenhum com a barraca aberta. Dormimos um sono polifásico bem esquisito, e às 05h já estávamos de pé, desmontando a barraca e guardando tudo na mochila. "Acordamos vivos", pensamos.

Daí então o legado de nossa miséria apresentou-se. Em busca da trilha que ligaria Santo Antônio até a Praia do Caxadaço, entramos por caminhos esquisitos e trilhas inexistentes no meio da mata. A mochila do Pedro não parava de arrebentar. 10 horas, meio-dia, duas da tarde... o tempo passando e sequer tínhamos noção de onde estávamos.

Onde estava o sol? A vegetação densa cobria tudo ao nosso redor e acima de nós - às vezes, dentro da gente, com os espinhos de algumas plantas cortando nossa pele. Por onde quer que olhássemos, não havia caminho. Em uma hora, devemos ter avançado 20 metros, se muito. Em uma tentativa desesperada de raciocínio, que àquela hora já era lento pela falta de água e privação de descanso, pensei em fazer alguma sinalização com fogo em busca de um possível resgate.  Pedro, mais calmo, buscava algum sinal familiar naquele inferno verde que pudesse nos fazer voltar ao caminho de origem.

Vi um pequeno córrego com uma água de coloração nada agradável, mas que logo serviu-nos para matar a sede. Imaginei que, caso seguíssemos seu curso, poderíamos sair em algum lugar - quem sabe, até mesmo na praia! Ledo engano.

Após nos arrastarmos entre espinhos e pedras, fiz uma espécie de rapel usando um cipó para descer uma pedra de 3 metros até um declive onde o curso da água seguia. De repente o caminho ficou mais amplo, menos denso, e resolvi ir correndo, já achando que encontraria algum vestígio de civilização por ali.

Parei bruscamente. Um passo a mais e eu estaria provavelmente morto. Na minha frente, disfarçado por uma árvore, havia um penhasco de pelo menos uns 50 metros de altura, que dava em direção a pedras que o mar, revoltoso, ia de encontro com toda fúria.

Voltei correndo na direção do Pedro, refiz o rapel (o medo de que o cipó arrebentasse não era maior do que a dor dos ferimentos eu eu acumulara até ali). E aí, então, quase desistimos.

Parados sob uma clareira, estávamos quase dormindo, pensando em passar a noite por ali mesmo, quem sabe caçar um tatu-bola, quando de repente Pedro reconheceu ao longe uma árvore peculiar que havíamos passado antes de nos perdermos. Imediatamente, demos um jeito de levantar e chegamos até lá. Reconheci o caminho. Seguindo às raras fitinhas vermelhas que os visitantes anteriores deixaram amarradas nas árvores, conseguimos chegar ao ponto exato em que havíamos nos descaminhado.

A razão de nossa desordem geográfica era uma árvore caída no meio de uma trilha. Estaríamos no caminho certo se tivéssemos pulado a árvore, mas resolvemos seguir pro lado, no que parecia ser uma bifurcação, mas que por final não nos levou a lugar algum.

Aliviados, abrimos com maior tranquilidade nosso suprimento de água (o pouco que restara até então) e um sanduíche. Era necessária recuperar as energias.
Não havia clima para seguir em frente - nem coragem. Retrocedemos, e logo chegamos ao caminho de Lopes Mendes. Era tarde, estávamos exaustos, com uma aparência lamentável. Mas merecíamos um mergulho.
O cansaço era tanto que quase dormimos em Lopes Mendes mesmo. Mas a lembrança de que naquela área existem jacarés nos fez desistir da ideia. 

Seguimos, aos troncos e barrancos, em direção a Palmas. Precisávamos de um banho, e isso algum camping poderia nos oferecer. Logo na descida da pedra que dá acesso a praia de Palmas, vimos o Bar e Camping Palmas, onde haviam nos oferecido no dia anterior, por apenas R$10, tudo o que precisávamos para ter uma boa noite de sono.

Após um belo banho e um miojo (acho que nunca mais comi miojo depois dessa viagem...), deitamos na barraca e dormimos uma noite espetacularmente confortável, depois de tudo que passamos naquele dia.

No outro dia, pela manhã, decidimos que iríamos embora de tarde, pegando a barca das 17h30 pra casa.
Mas bastou sentarmos em frente ao quintal do camping para abandonarmos de vez esta ideia.

A brisa que vinha do mar nos entorpeceu, e a água do mar da Praia de Palmas agiu como um verdadeiro tranquilizante e cicatrizador para a pele.

Aproveitamos para conhecer um pouco mais dos poucos vizinhos que tínhamos no camping. Um casal de argentinos, duas alemãs e uma simpática senhora de Nova Friburgo que havia abandonado tudo em casa e estava hospedada no camping, desde o carnaval, aproveitando a vida. 

O ambiente era tão acolhedor que ficamos receosos de seria o nosso caso querer ficar lá pra sempre também. Melhor não arriscar. "Vamos embora amanhã!", decidimos. Falamos com o simpático sr. Mario, responsável pelo local, e garantimos mais uma diária.

Com um dia dedicado inteiramente ao ócio, ainda tivemos gana de ir a Lopes Mendes pela terceira vez - aquela praia realmente havia nos conquistado.

Logo o último dia chegou. Quem disse que queríamos abandonar aquelas lindas praias, os amigos que ali fizemos, a feijoada que filamos e todas as experiências - mesmo as ruins - que vivemos?

Arrumamos nossas coisas, tristes, mas conscientes de que devíamos voltar pra casa. Há 3 dias que não demos nenhum sinal de vida aos nossos familiares.

A trilha de volta ao Abraão pareceu-nos a subida do Everest. Cansávamos a cada passo, com uma fadiga acumulada que demorou semanas para ser curada. Chegamos na Vila e ainda tivemos tempo de passear um pouco pelas ruas cheias de gente, restaurantes e hóteis do lugar.

A barca chegou e tivemos o privilégio de acompanhar o pôr-do-sol de um lado da embarcação e o esplendor da lua cheia do outro. Uma visão linda, que marcou a mim e a todos os que estavam na barca, que empoleiravam-se nas janelas a fim de contemplar o show que a natureza resolveu nos dar naquele dia.

É bem verdade que fracassamos em nossa tentativa de dar a volta a Ilha. Não planejamos direito, mas valeu a experiência. Não desisti de tentar, em breve, mais uma volta à ilha - desta vez, mais consciente das surpresas que podem acontecer no caminho.

Seja como for, aquela manhã em que acordamos após um dia de extremo cansaço e sentamos nas cadeiras de praia em frente ao mar jamais sairá da minha cabeça. Aquela temperatura amena, o vento gostoso na cara, o balanço das folhas e o esquilo que subia a árvore tranquilamente tiveram um impacto muito forte sobre mim.

I'll be back.

3 comentários:

  1. Oi Wendell, tudo bem?

    Você pode passar um e-mail pra gente conversar um pouco?

    Abraço,

    Anderson - REVISTA BICICLETA
    bicicleta@revistabicicleta.com.br

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    Respostas
    1. Cara muito legal sua aventura, foi aventura mesmo e pena que não completaram o circuito.....creio que agora vc deva estar mais preparado....mochila tem que ser boa e cargueira, pancho que cubra a mochila, faca, perdeneira,ob para acender fogueira de emergência ou leve também um fogareiro de camping,lona vc tem e barraca, corda de 15m de 6mm e uma de 20 metros de 8mm, cneco de camping em alumínio, saco impermeavel ( estanq) , lanterna, boa que dure nao potente mas que ilumine bem e dure, um bastão laser (modelos novos servem também para acender foqueira e sinalizar com laser usando o código sos)....tem inúmeras dicas de no Youtube vc já deve ter visto depois desta aventura....boa sorte nas próximas aventuras...e quando vc for novamente fazer esta aventura siga o caminho inverso que sera o correto....novamente boa sorte.

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  2. Boa tarde!

    Tudo bem, meu amigo Anderson?
    Estou pensando em pedalar pela ilha, dando uma volta completa em 5 ou 7 dias.
    Acha possível?
    Meu preparo físico é ótimo e não me incomodo com subidas ou pisos acidentados.

    Abraços e obrigado!

    Rubens

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